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Dezembro

Rio Grande do Sul o estado com mais aes judiciais relacionadas ao fornecimento de medicamentos pelo SUS

 

Em entrevista exclusiva ao Informativo da SARGS, o promotor do Ministrio Pblico do Rio Grande do Sul, Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes, fala sobre sua atuao com Projetos Estratgicos na rea da sade, com foco na gesto de processos, e avalia a relao entre mdicos, sade pblica e a Justia.

Informativo da SARGS: Qual a sua atuao em relao ao trabalho com o Sistema nico de Sade?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: O projeto na rea no qual estou trabalhando busca fomentar a adoo da metodologia de Planejamento e de Gesto Sistmicos com foco prioritrio na sade, mais especificamente na otimizao do fornecimento de medicamentos pelo Sistema nico de Sade (SUS). Os objetivos so mapear e integrar, a partir desse foco, as necessidades, possibilidades e atividades necessrias para atingir, com efetividade, a otimizao proposta. Para tanto, o projeto prev a criao de uma Rede Estadual e o fomento criao de Redes Municipais de cooperao que utilizem esta metodologia. Mas buscar melhorias para esta questo implica em tambm envolver os mbitos e instituies em todas as esferas da rede. So os ministrios pblicos, secretarias de sade, justia de Governos federal, estadual e municipal a at entidades de classe, como o CREMERS e o SIMERS, que esto participando da iniciativa, porque so agentes envolvidos diretamente com a causa.

Informativo da SARGS: Por que este um dos projetos mais importantes para o MP RS?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: Esta problemtica especfica dos remdios precisa receber uma ateno especial aqui no Rio Grande do Sul: o estado com mais aes judiciais no Pas. So cerca de 250 mil no Brasil inteiro e 120 mil destas registradas no RS.

Informativo da SARGS: Por que o Ministrio Pblico precisa ampliar sua atuao no setor da sade no Estado?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: A sade pblica no Rio Grande do Sul tem muitos pontos a serem melhorados e o MP, pela funo social que tem, deve atuar e se empenhar muito para que isso ocorra. V-se um crescente desrespeito natureza e dignidade das pessoas e entre as causas esto desde problemas na distribuio de medicamentos, deficincia em qualidade no atendimento at a falta de estrutura, que dificulta as prprias relaes do Sistema nico de Sade com os profissionais vinculados a ele. Otimizao de recursos um dos pontos-chave para tentar solues. Porm, entendemos que estas causas no podem ser somente associadas ao material, aos recursos financeiros. Na verdade, um contexto sistmico, em que o econmico, o social e at o ambiental precisam ser considerados. Portanto, se as causas so multifatoriais, formando um cenrio sistmico, preciso atuar com um planejamento sistmico sobre isso.

Informativo da SARGS: Para os focos em que atuas, como um trabalho de planejamento sistmico pode contribuir?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: Nessa questo dos medicamentos, por exemplo, no basta somente colocar mais medicamentos para distribuir. extremamente necessrio corrigir outras dificuldades em armazenamento, controle, uso correto das doses, entre outros, para que a rede funcione eficientemente. O que fazemos mapear e integrar as necessidades, as possibilidades e as atividades desenvolvidas. Desta forma, uma das situaes que estamos identificando a importncia do acompanhamento psicossocial. Em muitas vezes, a pessoa ganha o remdio e faz um uso continuado dele enquanto os sintomas esto sendo agravados pela questo psicolgica. Ento, nesses casos, deve-se ainda prestar atendimentos que possam solucionar o problema psicolgico, comportamental e familiar, e no s dar remdio. uma questo complexa que exige atender s necessidades fisiolgicas, psicolgicas e de auto realizao.

Informativo da SARGS: Pelo trabalho que ests desenvolvendo, como percebes a sade no Pas, de uma maneira geral, considerando a viso sistmica?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: A sade no s uma questo curativa, mas tambm preventiva. Isso base nos princpios da Constituio. Encarar a sade como uma viso sistmica o ideal para atender as necessidades dos cidados de forma integral, gerando os devidos impactos econmico, social e ambiental. O social com investimentos na prpria sade, mas ainda em educao, cidadania e segurana. Quando se faz isso, gera o que se pode chamar de efeitos pblicos. Para a sociedade, na verdade, independente de quem faa, interessa que os servios funcionem e que os agentes pblicos dos diversos segmentos sejam eficientes nos servios prestados. Isso pode ocorrer de forma mais eficaz a partir das redes de cooperao, que envolvem setores pblico e privado. A melhor gesto de um sistema nada mais do que uma rede de cooperao que una todos os componentes que fazem parte dele em prol dos objetivos em comum.

Informativo da SARGS: Como Justia e classe mdica tem se relacionado frente ao contexto da sade pblica?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: No sistema da sade, um dos componentes fundamentais so os mdicos. Por isso, justamente, que estamos buscando consolidar parcerias com as entidades de classe, como o CREMERS e o SIMERS. Na verdade, quando esse sistema no funciona de forma integrada e multidisciplinar, no h uma real efetividade. E acontece que, quando a sade no funciona, muita coisa vai parar na justia. Os rgos do judicirio, MP e defensoria, por sua vez, por no conhecerem profundamente os aspectos que formam a problemtica, agem de com propostas lineares simplesmente mandando abrir vagas, providenciar internaes ou remdios etc., intervindo nesse sistema com certa inefetividade. Sabemos que as demandas do SUS crescem a cada dia e que ele j est altamente sobrecarregado. As solues passam, necessariamente, por melhorias na gesto e por conhecimento das realidades que constituem o trabalho e a estrutura da sade nos diferentes locais.

Informativo da SARGS: Que solues podem ser implementadas no contexto que envolve a prtica da medicina e a Justia?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: Como Ministrio Pblico, no podemos gerir esse sistema. O que estamos procurando fazer estabelecer a rede que vai fomentar o planejamento e a gesto do sistema no qual ns poderemos ser acionados a interferir. Assim, com este envolvimento, teremos condies de interferir, quando necessrio, de formas mais adequadas, porque se conhece o que est acontecendo. Saber como funciona a regulao no caso das internaes de pacientes, como foram comprados e critrios de distribuio dos medicamentos, por exemplo, extremamente necessrio para que decises arbitrrias no compliquem ainda mais a situao. Simplesmente transferir o atendimento de uma pessoa para outra sem analisar os critrios mdicos, na maior parte das vezes, no resolve. A justia trabalha com uma realidade ideal, com o que deve ser, mas o mdico, no seu dia-a-dia, trabalha com o que , com o que possvel. Mesmo o profissional bem intencionado, sem recursos e condies estruturais adequados, no conseguir prestar bom servio populao.

Informativo da SARGS: E especialmente no caso dos anestesiologistas?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: No caso dos anestesiologistas, por exemplo, obrigao do profissional acompanhar todo o caso do paciente antes, durante e depois do procedimento anestsico. uma prtica que, muitas vezes, no h condies de acontecer, principalmente em hospitais pblicos, mas que o mdico pode ser responsabilizado por isso. Conhecendo essa realidade, o MP pode criar mecanismo de amparo, o ideal que possamos ajudar nesse contexto social, pois todos saem beneficiados. Deixar o mdico sobrecarregado e com a responsabilidade por tudo que envolve a cirurgia no o caminho. Ns podemos dar suporte para que nessas questes, que so de poltica pblica, se fomente a gesto sistmica e integrada. Consequentemente, ocorrem melhores atendimentos.

Informativo da SARGS: Como este trabalho iniciou e quais so suas perspectivas de avano?
Dr. Rodrigo Schoeller de Moraes: Aqui no RS, a implantao de uma metodologia sistmica comeou em 2002, em Rio Grande, com o foco prioritrio para as crianas em situao de acolhimento social. Depois, passamos para a questo das drogas e dos medicamentos, ainda na mesma cidade. Ento, houve interesse de promovermos a iniciativa em nvel estadual, focando um projeto de planejamento familiar. Hoje, o Conselho Nacional de Justia e do Ministrio Pblico, assim como o Poder Judicirio, por meio dos seus Mapas Estratgicos, tambm esto aderindo a esta linha: a de que o nosso dever no simplesmente interferir ou sermos gestores, mas fomentar e induzir polticas pblicas para melhorar a sade em todos os seus aspectos sociais. O desafio est s comeando e para obter avanos preciso do apoio de toda a sociedade e, fundamentalmente, dos mdicos. Sistema de Justia e mdicos tm uma misso comum: cuidar das pessoas, trabalhar pelo bem da sociedade. Temos que conhecer a realidade um do outro e brigar juntos, em cooperao, por este objetivo. Mais detalhes desse trabalho esto no blog http://rodrigoschoeller.blogspot.com.

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