|
novembro de 2002
“Temos que tirar a máscara, sair de trás do pano e aparecer”
O anestesiologista e diretor científico da SARGS, Ildo Meyer, fala sobre a importância do marketing para os anestesiologistas.
Equipe Editorial: Por que as pessoas têm tanto medo de anestesia?
Ildo Meyer: A anestesia é uma especialidade mal nascida porque não surgiu com médicos. A parte nobre do procedimento era a cirurgia e quem fazia a anestesia era um auxiliar, estudante de medicina ou a própria enfermeira. E, por não terem formação, drogas e equipamentos adequados, aconteceram muitos acidentes, o que acabou formando a fama de que a anestesia é algo perigoso. Hoje, eventualmente, ainda ocorrem acidentes que vão para a mídia e colocam na cabeça das pessoas que a anestesia é arriscada. A população tem uma imagem de que o anestesiologista é um profissional que pode causar mal.
Equipe Editorial: É neste aspecto que se insere o marketing?
Ildo Meyer: Com a utilização de ferramentas de marketing é possível fazer com que se modifique a imagem de um produto ou serviço. A idéia é inicialmente conscientizar os anestesiologistas sobre a importância da mudança de nossa imagem perante a população em geral. A partir deste posicionamento, se iniciariam as várias estratégias de marketing.
Equipe Editorial: E na prática, como se consegue passar isso para os anestesiologistas?
Ildo Meyer: Mudar a imagem da pessoa que pode fazer o mal, para o guardião da saúde, quem irá proteger o paciente na hora em que ele dormir e perder o controle. Uma das coisas que as pessoas mais têm medo é de perder o controle da situação. Ninguém quer abrir mão disso. Quando a pessoa vai ao médico, ela já começa a transferir parte do controle da sua vida para o médico. E quando ela vai ao anestesiologista é pior ainda, porque ela irá dormir e passar todo o controle para este profissional. Outras funções do marketing são fazer com que consigamos nos “vender” melhor para a sociedade, além de fazer a nossa “propaganda” para governo e a sociedade.
Equipe Editorial: Este é um trabalho que o médico precisa construir dia-a-dia?
Ildo Meyer: Sim. Os clientes do anestesiologista são o paciente, a família, os amigos do paciente, o cirurgião, a equipe que trabalha no hospital, os convênios e o governo. Todos poderão indicar o profissional e, um dia, ser “clientes” também. A nossa função deve estar sempre dirigida para o marketing. Pode ser que as ações não dêem resultado hoje, mas o anestesiologista deve estar sempre fazendo ações e estratégias de marketing sabendo que 50% delas não irão resultar em nada. Só que ninguém sabe quais são os 50% que funcionam. Nas palestras que venho proferindo sobre o tema, abordo muito o que o paciente espera quando vai falar com um anestesiologista. Quando o paciente procura um profissional é porque está doente, ansioso, e o que ele quer é que o médico transmita segurança e empatia. O paciente quer que o anestesiologista olhe nos olhos, chame-o pelo nome, explique os procedimentos numa velocidade que ele irá entender. Enfim, ele quer que o médico firme compromissos com ele. O atendimento é uma das mais importantes ações de marketing.
Equipe Editorial: Que outras ações de marketing poderiam ser destacadas?
Ildo Meyer: Campanhas de esclarecimento com a população, como telefone à disposição, palestras para a comunidade. Tudo isso são ações que vão tentando modificar essa imagem do anestesiologista, demonstrando que ele não é um carrasco. O profissional precisa participar das comissões dentro do hospital e não ficar omisso. Há muito tempo, o anestesiologista se fixava na sala de anestesia e não se importava com o que acontecia. Hoje, a idéia é que nós temos que tirar a máscara, sair de trás do pano e aparecer.
Equipe Editorial: E como os anestesiologistas analisam a questão do marketing? Ainda há muita resistência?
Ildo Meyer: Ainda há muita resistência não só pelos anestesiologistas, mas pelos médicos em geral. Há algum tempo, a propaganda médica era vista como anti-ética. Hoje, não há mais problema em divulgar o que se faz e, principalmente, o que se faz bem. Mas muitos médicos têm resistência quanto a isso e consideram a propaganda algo anti-ético. Na verdade, não é. Então, muitos médicos estão ficando para trás porque não têm noção de que o marketing é uma série de estratégias que engloba desde a localização do consultório com estacionamento, segurança, acesso fácil e até o bom atendimento. É muito importante ter em mente que ao contratar um profissional de marketing nem tudo será resolvido. Ninguém entende mais de anestesia do que os anestesiologistas e isso jamais pode ser esquecido. O profissional de marketing entende de marketing, não de medicina. Nós temos que participar ativamente desse processo porque nós conhecemos o mercado e o cliente e auxiliar diretamente o profissional de marketing em suas estratégias.
Equipe Editorial: Como o marketing começou a ser pauta para eventos direcionados aos médicos e qual a importância de disseminar seus conceitos para a categoria?
Ildo Meyer: Há sete anos fui diretor científico da SARGS e tentei apresentar uma palestra sobre marketing institucional em uma jornada, mas não consegui. Na jornada seguinte, convidamos um profissional de marketing que ministrou uma palestra muito boa sobre o tema. Depois, ele foi convidado para palestrar no Congresso Brasileiro de Anestesiologia. A partir disso, os profissionais começaram a prestar atenção no marketing. Quando fui presidente da SARGS, decidi contratar uma assessoria de marketing. Percebi que a faculdade nos ensina muito a questão técnica-científica, mas não ensina a nos relacionarmos com os públicos. E o anestesista, mais do que as outras especialidades, é carente nessa área. Muitas vezes ele procura essa especialidade pela deficiência que tem de se relacionar com os pacientes, família e sociedade. A partir disso, comecei a estudar marketing e montei algumas palestras com as quais tenho viajado pelo Brasil. Alguns gostam, outros não. Acredito que quem não gosta ainda não está preparado para isso.
Equipe Editorial: Por onde deve iniciar o anestesista que nunca pensou em marketing e hoje quer adotar algumas ferramentas para desenvolver esta cultura?
Ildo Meyer: A primeira ação para se divulgar é fazer um cartão de visitas. Em seguida, montar um consultório de anestesia para atender o melhor possível o paciente. Não importa o local, se é junto com o cirurgião, no próprio hospital ou num consultório próprio, o que realmente importa é esclarecer todas as dúvidas do paciente e de sua família. Quando terminar a cirurgia, é fundamental dar notícias para os familiares; telefonar para o paciente depois da cirurgia para saber como está e como foi a evolução etc. Estas ações mostram cuidado, preocupação e o compromisso que temos com o paciente e sua família, nos desvinculando de uma imagem de mercenários e que só trabalhamos por dinheiro.
Mariana Turkenicz
Enfato Comunicação Empresarial
(51) 3333.7832 /3333.9912
enfato@enfato.com.br
|