agosto de 2002

“Somos a segunda maior Sociedade de Anestesiologia do Mundo”

A Equipe editorial da Sociedade de Anestesiologia do Rio Grande do Sul (SARGS) entrevistou o presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), Carlos Alberto Pereira de Moura, que esteve em Porto Alegre, no dia 20 de março, para participar do evento Anestesia no Sofá. Durante o encontro, promovido pela SARGS, o presidente falou sobre a situação da anestesia no Brasil e sobre a atuação da SBA e perceptivas para 2002.

Equipe Editorial:Como iniciou a sua atividade na SBA?
Carlos Alberto Pereira de Moura: Sou membro da SBA desde 1976. Inicialmente, fui Membro Aspirante (1976-1977) e depois Membro Ativo. Obtive o Título Superior em Anestesiologia com aprovação em prova escrita (1981) e oral (1982). Minha carreira político associativa teve início quando fui eleito para o cargo de Secretário Geral da SBA - Gestão 1988. Fui reeleito para as gestões de 1989 e 1990, no mesmo cargo. No período de 1991 a 1996 exerci o cargo de Secretário da Comissão de Ensino e Treinamento, através de duas eleições. Na gestão de 1999 retornei a Diretoria da SBA por ter sido eleito Diretor do Departamento Científico e fui reeleito para o ano 2000. Em 2001, permaneci na Diretoria, também através de eleição, no cargo de Vice-Presidente e neste ano estou exercendo o mandato de Presidente decorrente da eleição realizada na Assembléia de Representantes de 2001, em Recife/Pernambuco, durante o 47o Congresso Brasileiro de Anestesiologia.

Equipe Editorial: Como o senhor analisa a evolução da entidade nos últimos anos?
Carlos Alberto Pereira de Moura: A SBA é uma entidade muito dinâmica. Está sempre crescendo e envolvendo-se em todos os setores que possam estar ligados ao ensino e à atividade médica, especialmente na área da Anestesiologia, tanto em nível Nacional quanto Internacional. Posso destacar nos últimos anos nosso maior envolvimento com as Sociedades de Anestesiologia de diversos países. Hoje, somos a segunda maior Sociedade de Anestesiologia do Mundo. A primeira é a Sociedade Americana de Anestesiologia (ASA). Pertencemos a Federação Mundial das Sociedades de Anestesiologia (WFSA) e temos vários membros da SBA ocupando cargos em diferentes Comitês e Comissões desta entidade. Na gestão 1988-1992 o Presidente da WFSA foi um Brasileiro, o Dr. Carlos Pereira Parsloe, pertencente a Regional de São Paulo.Também fazemos parte da Confederação Latino Americana de Sociedades de Anestesiologia (CLASA) e da mesma forma ocupamos vários cargos em seus diferentes comitês e comissões. Na gestão 1997-1999 o Presidente da CLASA foi o Dr. Alfredo Augusto Vieira Portela, membro da Regional do Rio de Janeiro. Atualmente, ele é o Secretário Administrativo desta entidade.

Equipe Editorial: O que o senhor destacaria de mais importantes?

Carlos Alberto Pereira de Moura: Estamos sempre buscando melhores condições de trabalho, de remuneração e procuramos manter a educação continuada de nossos membros o mais atualizada possível. Nestas duas áreas evoluímos criando comitês e comissões que assessoram a Diretoria objetivado uma maior agilidade nos trabalhos e, conseqüentemente, um melhor resultado. Podemos destacar a edição de nossa Revista Brasileira de Anestesiologia, bilíngüe (Inglês e Português) desde o ano de 2001. Nossos eventos científicos são sempre direcionados para o que de mais atual está acontecendo e não poupamos esforços no sentido de convidarmos palestrantes brasileiros e estrangeiros para oferecer sua experiência através de suas apresentações.
Importantíssimo também é o nosso Curso de Suporte Avançado de Vida em Anestesia (SAVA), que começou no ano de 2001 e foi um grande sucesso. Trata-se de um curso específico que objetiva treinar os anestesiologistas da melhor forma possível para o atendimento de complicações graves, emergenciais, que possam ocorrer durante um ato anestésico cirúrgico ou fora dele. Junto ao Governo Federal estamos sempre reivindicando. Conseguimos algumas vitórias na área da defesa profissional e do ensino médico e de pós-graduação. Estamos pleiteando, em conjunto com várias outras especialidades médicas, que a Residência Médica em Anestesiologia passe a ser ministrada em um período de 3 anos.O enfoque para que possamos desenvolver atividade pré-hospitalar (consultório de anestesia) foi uma das grandes conquistas e mereceu até parecer favorável do Conselho Federal de Medicina. Também a concessão pela AMB para que a SBA seja a responsável pela analise curricular dos candidatos a obtenção do Certificado de Área de Atuação em Tratamento da Dor merece destaque dentro das atividades da SBA nos últimos anos.

Equipe Editorial: Quais as perspectivas da SBA para este ano?
Carlos Alberto Pereira de Moura: Dar continuidade a todos os projetos que estão em andamento e tentar fazer com que se tornem realidade, a saber: Indexação da Revista Brasileira de Anestesiologia no Index Medicus Americano. Participar ativamente do novo rol de procedimentos médicos a ser editado pelo Conselho Federal de Medicina com o apoio da Associação Médica Brasileira e de todas as demais Especialidades Médicas. Abordar de forma direta o problema referente ao médico que é dependente químico (álcool e outros tipos de drogas), especialmente os anestesiologistas. Para isso, estamos organizando palestras e editorando um manual específico sobre esse tema extraído da Revista da Sociedade Americana de Anestesiologia. Manter o diálogo com o Governo Federal para tornar definitivo o programa de Residência Médica de Anestesiologia em 3 anos e, ao mesmo tempo, conseguir obter um ganho importante na remuneração dos anestesiologistas que prestam serviços para o Sistema Único de Saúde (SUS).

Equipe Editorial: Como o senhor enxerga a anestesiologia de uma forma geral no Brasil?
Carlos Alberto Pereira de Moura: A Anestesiologia Brasileira é uma especialidade definitivamente marcante no meio leigo e médico. O Anestesista é sempre muito respeitado e, atualmente, todas as pessoas que vão submeter-se a um ato anestésico para procedimentos cirúrgicos, diagnósticos e terapêuticos querem saber quem será seu anestesista. No meio médico somos reconhecidos por nossa união e, conseqüentemente, pela nossa força. A SBA, sempre presente, através de sua diretoria, comissões, comitês e de suas Regionais fazem com que a união realmente represente a força maior que alavanca todo esse processo.

Equipe Editorial: Que pontos o senhor levantaria que contribuem para o desenvolvimento de uma maior mobilização da categoria?
Carlos Alberto Pereira de Moura: Fundamentalmente a união da categoria. Essa união é fruto de um trabalho que se iniciou com a criação da SBA, em 1948, e de suas Sociedades Regionais (algumas foram criadas antes da própria SBA). A SBA "somos todos nós" e com esse lema garantimos o sucesso que até hoje conquistamos. Não podemos parar, pois se assim o fizermos tenderemos a retroceder e a perder os espaços já conquistados. Ratifico que a organização estrutural que possuímos (SBA e suas Regionais) e a união que mantemos a todo custo são os pontos fundamentais de nossa trajetória como entidade representativa da classe.

Equipe Editorial: Como o senhor analisa o Rio Grande do Sul em comparação com as demais regionais?
Carlos Alberto Pereira de Moura: Como já disse, nossas Regionais é que constituem a SBA. A Sociedade de Anestesiologia do Estado do Rio Grande do Sul (SARGS) é tão importante para nossa especialidade sim como uma de nossas menores Regionais. Individualmente, a SARGS possui características muito marcantes na defesa profissional e na área científica. Foi a pioneira na reinvidicação de melhor remuneração por parte ao ex-INAMPS, atual SUS. Seus Centros de Ensino e Treinamento que existem em Porto Alegre e em Santa Maria ocupam lugar de destaque na formação de novos especialistas em anestesiologia.Os Congressos Brasileiros e as Jornadas Sulbrasileira de Anestesiologia, organizados pela SARGS, sempre são motivo de orgulho para todos os anestesiologistas brasileiros. Além disso, sua representatividade política em nossa Assembléia de Representantes, nosso órgão deliberativo soberano, é significativa.

Equipe Editorial: O que o senhor recomendaria aos anestesiologistas no sentido de reduzir o medo do paciente com relação à anestesia?
Carlos Alberto Pereira de Moura: Ter a maior e melhor relação médico-paciente possível e imaginável. O diálogo é fundamental em qualquer área do relacionamento humano. Quanto mais o médico anestesiologista puder se fazer entender por seu paciente, muito menor será o medo da anestesia. A melhor medicação pré-anestésica é a consulta pré-anestésica feita da melhor maneira possível. Tenho a certeza de que os pacientes que vão submeter-se ao ato anestésico e que foram consultados adequadamente por um anestesiologista terão muito mais tranqüilidade durante e após a realização da anestesia. O medo, a ansiedade podem perfeitamente serem superados com a consulta pré-anestésica. Este é o grande ponto. É onde estamos insistindo cada vez mais com nossos membros no sentido de que todos possam realizar consulta pré-anestésica em todos os pacientes. Nesse ponto, o Rio Grande do Sul pode ser também considerado um pioneiro.

Equipe Editorial: O que o senhor considera dos médicos aplicarem anestesia durante a Residência?
Carlos Alberto Pereira de Moura: O Médico Residente, como o próprio nome diz é médico. Pela legislação brasileira todo aquele que se graduou em medicina está autorizado a exercê-la em qualquer uma de suas especialidades. Entretanto, o Médico Residente é aquele que está em um Programa de Residência Médica para desenvolver sua formação em nível de pós-graduação. Assim sendo, ele necessita de orientação teórico-prática para desenvolver suas atividades práticas. Não se pode conceber que um Médico Residente pratique Anestesia sem a presença de um Instrutor. Ele está cursando a Residência para aprender e só se aprende quando somos orientados. Aprender sem ensinamento significa aprender errando e, errar em medicina, especialmente em anestesia, pode ser fatal. Portanto, só podemos admitir a atividade prática do Residente (aplicar anestesia) com a presença do Médico Anestesista Responsável pelo ato (Instrutor).

Equipe Editorial: Qual é a sua posição sobre a possível revalidação dos novos títulos de especialista que a AMB está analisando?
Carlos Alberto Pereira de Moura: A AMB está estudando uma maneira de revalidar o Título de Especialista que ela concedeu a um de seus membros há vários anos. Atualmente, existem várias exigências para se obter o Título de Especialista. Em Anestesia, é necessário cumprir programa de Residência Médica e/ou Curso de Especialização, em serviços credenciados pela Comissão Nacional de Residência Médica e/ou pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia, por um período mínimo de 2 anos, ser aprovado em provas escritas e práticas e apresentar um trabalho científico ao final do Curso/Programa. Até aí tudo bem. Mas, e depois. Daqui a 10, 20 anos o médico continua portador do Título de Especialista e não sabemos se ele reciclou seus conhecimentos, se procurou atualizar-se com os novos métodos, novas drogas etc. Desta forma, a AMB, em conjunto com as Sociedades de Especialidades, está tentando encontrar um denominador comum que obrigue o médico a revalidar seu Título de Especialista periodicamente. Esse assunto começou a ser discutido no ano passado e acreditamos que vá se prolongar ainda por todo esse ano até se chegar a uma conclusão.

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