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maio de 2007
Tradição e Associativismo
Presidente da SARGS por dois anos consecutivos, gestão 2004 e 2005, Dr. Fernando Squeff Nora, concede uma entrevista para o Informativo Virtual da entidade sobre Tradição e Associativismo. Ele destaca o papel da SARGS e a responsabilidade que a entidade tem com o médico anestesiologista dentro e fora do Estado.
Equipe Editorial - O senhor já foi presidente da SARGS. Na sua opinião, o que é necessário para incentivar e desenvolver o associativismo nas pessoas, principalmente nos anestesiologistas?
Dr. Fernando Nora - As ações das Sociedades médicas, de forma geral, são estáticas e tradicionais demais. Precisam ser mais dinâmicas. Existem vários tipos de Anestesiologistas clínicos nos mais diversos locais do estado. Cada local tem uma característica diferente. Cada local desenvolve peculiaridades diferentes nos Anestesiologistas que trabalham nestes locais. Um colega que tem preocupações específicas no seu relacionamento com os cirurgiões e demais entidades de saúde na capital, terá outros tipos de problemas e preocupações no interior do estado, pois as realidades são diferentes, principalmente na esfera do SUS. O maior ou menor associativismo está relacionado diretamente com o aspecto econômico de cada colega. O espírito corporativo só aparece quando o indivíduo sente que a Sociedade está atuando diretamente na linha de melhorar o dia-a-dia dele. Como as realidades são diferentes, de nada adianta a SARGS tomar medidas gerais e iguais para todo o estado. Cada realidade deve ser tratada em separado, respeitando as peculiaridades de cada um. O indivíduo que lida com uma instituição Hospitalar, pois é empregado dela, tem um tipo de negociação, anseios e dificuldades completamente diferentes do profissional autônomo.
Equipe Editorial – Está é a principal dificuldade?
Dr. Fernando Nora - A dificuldade está em lidar com as duas realidades, pois invariavelmente o sujeito é empregado e autônomo ao mesmo tempo. A Sociedade precisa estar presente em ambos os momentos. Como? Mantendo-se atenda ao que ocorre no mercado e chamando para si a responsabilidade e não se curvando diante das circunstâncias. Instituições que escravizam fazem acordos unilaterais lesivos a classe e mantêm atitudes incongruentes com as deliberações da Sociedade devem ser combatidas veementemente. Novamente vem a pergunta. Como? Não dando espaço aos membros da Sociedade que fazem isto. Afinal, as direções destas instituições são ocupadas por Médicos que, como os demais, também respondem eticamente pelos seus atos. As Sociedades se eximem demais das suas responsabilidades éticas em fiscalizar e efetivamente julgar seus membros. Isto pode e deve começar a ser feito, caso contrário, a impunidade continuará gerando o descrédito que leva o colega a se afastar da Sociedade. Isto não ocorre só na Medicina. Ocorre em diversas esferas do convívio social, quando as pessoas dizem que a política e a polícia não punem adequadamente é o que querem dizer. Não basta uma diretoria estabelecer metas de trabalho. É preciso mostrar que elas estão sendo buscadas. Somente isto mostra ao colega sócio e, mesmo ao não sócio, que a diretoria tem um plano, é forte, tem metas a serem cumpridas. Precisa ter uma “cara”. Associativismo vem do orgulho, da vontade de crescer, da luta por ideais, do garimpo do dia-a-dia, do coleguismo, da força associativa da sociedade em congregar os colegas, da aptidão para a união.
Equipe Editorial - Em quais aspectos a tradição e o associativismo da SARGS contribuem para o engrandecimento da categoria? O que poderia ser diferente?
Dr. Fernando Nora - Tradição é algo tradicional. Parece óbvio, mas não tem sido praticado. Cultivar as suas tradições não significa apenas festejar as datas importantes. Significa manter na alma das pessoas os valores pelos quais elas cresceram aprendendo que são importantes. A defesa profissional é uma das marcas tradicionais da nossa SARGS que se quebrou ao longo dos últimos anos por força de atitudes pessoais e egoístas. Um dirigente de uma Sociedade Médica deve, acima de tudo, estar disposto a abrir mão das suas necessidades pessoais pelo coletivo. Os anseios de uma Sociedade nem sempre estão de acordo com as suas necessidades pessoais, enquanto diretor. A criação de um braço econômico pela SARGS há alguns anos tentou resgatar estes valores. A única receita que a SARGS tem é a mensalidade dos sócios. O país inteiro, sem exceção em qualquer estado, criou cooperativas fortes. Hoje, elas não só sustentam as sociedades como patrocinam o comparecimento de colegas a congressos e eventos científicos subsidiando inscrições, transporte, etc. A SARGS apoiou a Cooperativa de Porto Alegre como teria apoiado qualquer outra dentro do estado do RS que tivesse pedido auxílio. Isto não foi compreendido por diversos colegas, porque feriam as suas necessidades pessoais de acordos financeiros específicos e pontuais. De forma global as cooperativas só trouxeram exemplos de melhores negócios em todo o País. Uma pena, perde o RS uma bela chance de voltar a figurar entre as maiores e melhores Sociedades do nosso País. Na última Josulbra, realizada em Curitiba, a participação de Anestesiologistas Gaúchos, seja como palestrantes ou participantes, foi pífia. Motivo: necessidade de trabalhar, falta de dinheiro, falta de interesse, falta de representatividade da nossa diretoria junto as demais Sociedades. Perguntas: Se você recebesse auxílio da sua Sociedade para participar, não seria mais fácil? Se a diretoria da SARGS estivesse mais perto das demais diretorias, como a de Curitiba, por exemplo, participando, perguntando e dando sugestões, será que não teríamos viabilizado uma maior participação de colegas do RS como palestrantes na Josulbra? Será que só temos 5 ou 6 colegas dispostos e capazes a serem palestrantes em uma das mais importantes Jornadas do País? São atitudes mais fortes, de união, de participação nos processos de decisão e de inclusão que fazem com que a Sociedade se fortaleça.
Equipe Editorial - Qual o papel da SARGS nesse sentido?
Dr. Fernando Nora - O papel da SARGS é vital. É dela a responsabilidade de fazer com que o Anestesiologista Gaúcho seja valorizado dentro do RS e fora dele. Como? Tendo uma diretoria que honra as suas conquistas, não destrói as conquistas anteriores para exaltar as próprias. Sabendo manter metas claras. Um exemplo é o site da SARGS que foi criado para levar informação e ajudar a SARGS a comercializar seus eventos junto as demais Sociedades e com os laboratórios. Foi aprimorado nesta gestão e começa a dar frutos. A coerência e a manutenção de um passado de lutas é o marco da SARGS, não pode ser perdido.
Equipe Editorial - Que avaliação o senhor faz do mercado e da classe de anestesiologia no Rio Grande do Sul?
Dr. Fernando Nora - O mercado de trabalho está difícil. Sou pessimista pela dinâmica que tem sido proposta pelos planos de saúde, alguns hospitais e alguns maus colegas e pela forma como as Sociedades e, não somente a SARGS, têm se posto frente a estes aspectos. Absolutamente inertes. Incoerentes, fracos e com pouco poder de representação. Invariavelmente as condutas de muitas Sociedades Médicas deixam a desejar pelo derrotismo. Dizem: “é mais fácil nos rendermos ao mercado, para termos os sócios pagando suas mensalidades em dia, do que batermos de frente com eles lá adiante”. Isto cria uma sensação de insegurança e de descaso absolutos. É o caos geral de uma entidade que ao invés de proteger e mostrar os caminhos da ética, propaga a lei de mercado selvagem ou se rende a ele por meia dúzia de novos sócios que, na maioria das vezes, só pensam em si mesmos. Não estão na sociedade para somar ao bem comum e sim para obter vantagem pessoal. A prova disto é o posicionamento de alguns membros da nossa Sociedade frente a abertura de novas vagas de residência em Anestesiologia no nosso estado. Mais residentes significam mais mão-de-obra barata e mais gente precisando de emprego a qualquer custo. Isto só beneficia àqueles “Senhores e Senhoras” que fazem do trabalho alheio o seu ganho diário, provavelmente pela incapacidade pessoal de gerar o seu próprio sustento. Jamais deixarei de me indignar com a falta de respeito e de responsabilidade pelos novos colegas que estamos formando em nosso meio. Eles precisam ter noção de ética, responsabilidade social, vida associativa e coleguismo, caso contrário serão fantoches e estaremos gerando e incubando um “belo projeto” que resultará nos novos “Senhores” do futuro. Se perguntarão: “Porque não posso explorar os novos colegas que se formam hoje, se no passado fizeram isto comigo?” Me afastei do ensino em Anestesiologia pelo desgosto não do convívio alegre e sadio com os residentes, o que confesso sinto saudades, mas pelos bastidores de um sistema que está doente e incapaz de reagir por conta da conveniência pessoal, burocracia mental, e da mais absoluta incapacidade intelectual daqueles que têm a chance de decidir melhor, ofuscada pelo poder, esquecendo-se de ensinar o principal: o exemplo da ética e da responsabilidade. O mercado de trabalho será reflexo disto. Se tivermos capacidade de enxotarmos esta ótica perversa, poderemos ter um futuro um pouco melhor, caso contrário não haverá do que se queixar.
Enfato Comunicação Empresarial
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