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maio de 2006
Especialista destaca diferenciais da anestesia regional
O anestesiologista José Vicente Prado Pereira atua há mais de 20 anos com anestesia regional. Nesta entrevista ele destaca os diferenciais, as vantagens e desvantagens e quando usar a anestesia regional.
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| José Vicente Prado Pereira |
Equipe editorial: Como está a questão da anestesia regional e qual o futuro deste tipo de anestesia?
José Vicente Prado Pereira: A anestesia regional teve um início muito promissor e depois, com o advento da anestesia geral, ela teve um certo descrédito e caiu um pouco em desuso. A anestesia geral, com as drogas modernas mais seguras, ganhou um espaço muito grande, mas, a partir da década de 50, ela voltou a ter importância e, depois, com as técnicas perivasculares de Winie, na década de 60, ganhou um espaço maior e ultimamente vem crescendo rapidamente. Hoje, a anestesia regional tem um espaço próprio. A técnica de anestesia regional com sedação e com anestesia geral é, provavelmente, a técnica que cada vez se usa mais. E o futuro será a anestesia regional com todas as suas vantagens acopladas às grandes vantagens da anestesia geral, será um misto.
Equipe editorial: Em que momento os anestesiologistas devem optar pela anestesia regional?
José Vicente Prado Pereira: O anestesiologista vai ser conduzido mais pelo tipo de clínica que ele optar. No meu caso específico me encaminhei para este campo. Já atuo há mais de 20 anos. Já fiz algumas viagens internacionais sempre buscando a anestesia regional porque eu trabalhei, desde o princípio, por questões aleatórias, a minha clínica se concentra muito mais na ortopedia. E a ortopedia tem muitas cirurgias periféricas. Além do custo, a segurança e a facilidade da realização são aspectos interessantes, pois para fazer uma anestesia regional é preciso ter à disposição, obviamente, um material de ventilação e de entubação, mas com uma agulha e um frasco de anestésico local já se é capaz de fazer a técnica e permitir a realização de uma cirurgia.
Equipe editorial: Os anestésicos locais atuais são melhores que os antigos?
José Vicente Prado Pereira: Existem dois aspectos que melhoraram muito a anestesia regional, o aspecto da sedação, as drogas modernas tipo midazolan e, que propiciam conforto e segurança ao paciente, e os próprios anestésicos locais e a redução na sua toxicidade e sua neutoxicidade, que são os temidos para efeitos e complicações dos anestésicos. Isso evoluiu notadamente nos últimos tempos, o que propiciou o avanço da anestesia regional que, nos últimos dados, inclusive vem crescendo dentro do volume cirúrgico cerca de 10% nas últimas décadas.
Equipe editorial: Existe hoje uma supremacia da anestesia condutiva sobre a anestesia geral?
José Vicente Prado Pereira: Não propriamente, mas existe muito mais um sentido de integração das duas técnicas. Óbvio que existem casos bem claros que a anestesia regional não tem como ser feita ou um papel muito pequeno, como na cirurgia abdominal, na cirurgia torácica, mas, por outro lado, ela está substituindo muito mais os bloqueios sobre o neuro-eixo tipo peridural e raqui do que a anestesia geral. É aí que ela entra com força.
Equipe editorial: E que drogas podem ser associadas a anestésicos locais?
José Vicente Prado Pereira: Normalmente, as drogas que nós associamos são as que aumentam a difusão do anestésico como hialosima e algumas outras drogam que aumentam a sua eficiência. A mais antiga delas é a adrenalina e também uma droga que tem sido muito usada, embora eu não tenha muita experiência com ela, mas aumenta muito a duração do anestésico local é a clonidina e a morfina, que já é bastante usada.
Equipe editorial: Com relação a ultra-sonografia, há espaço para a ultra-sonografia na anestesia regional?
José Vicente Prado Pereira: Eu acho que existe sim. É uma coisa que está chegando e é nova ainda, mas certamente nós, anestesiologistas, vamos ter que começar a fazer cursos de ultra-som para entrar nisso. De fato aumentará a nossa efetividade na localização exata dos feixes bloqueados, sem que para isso o paciente sofra com as agulhas. Eu acredito que existe um espaço para a ultra-sonografia nessa área seguramente. Só que teremos que começar a treinar com ultra-som. Esse é o desafio.
Equipe editorial: Qual é a indicação de associação da anestesia regional com a anestesia geral?
José Vicente Prado Pereira: A indicação da anestesia geral e da anestesia regional são dois aspectos: um é a sedação, e aí entramos na questão até que ponto a sedação é sedação e quando ela se transforma numa anestesia geral. Existe sedação consciente ou não existe sedação consciente, este é um ponto que discutimos muito, porque a anestesia geral seria uma sedação muito profunda ou a sedação é uma anestesia geral superficial. São discussões, mas acredito que a anestesia geral e a sedação, dependendo da situação cirúrgica, exigirá uma ou outra. O paciente que tem um membro bloqueado, não esqueça que apenas aquela parte do corpo do paciente está bloqueado o resto está intacto e se tu ficares 30 minutos ou duas horas em cima de uma mesa verás que é desconfortável. É aí que entra a sedação. A anestesia geral, por exemplo numa cirurgia de ombro, fazemos o bloqueio com uma anestesia geral associada sempre, porque o paciente fica numa posição semi-sentado e o cirurgião trabalha muito próximo à via área, eventualmente, se há alguma dificuldade e seja preciso acessá-la será difícil. Então, prevenimos. Garantimos a ventilação do paciente, o conforto e segurança.
Equipe editorial: Que anestesiologistas podem exercer a anestesia regional?
José Vicente Prado Pereira: A base do bom exercício da medicina, em qualquer área, está fundamentada em três pontos básicos: farmacologia, anatomia e fisiologia médica. O anestesiologista que quer praticar anestesia regional ele precisa revisar e estudar constantemente anatomia. Embora o ser humano seja anatomicamente imutável, na verdade algumas variações existem e são normais. O conhecimento de anatomia é fundamental para que o profissional possa atingir aqueles feixes nervosos, neurovasculares, conhecendo, inclusive, os problemas que podemos encontrar ao chegar lá. Além disso, é importantíssimo que o profissional conheça muito, pois as drogas que serão usadas, aquelas que irão agir não os anestésicos locais sozinho, mas as drogas da sedação, podem causar maiores problemas muitas vezes. A fisiologia é claro que também porque no momento em que se bloqueia feixes ou segmentos maiores, mexemos com sistemas importantes, como sistema simpático e parassimpático e aí temos que conhecer a fisiologia, especialmente se a anestesia regional for sobre o neuroeixo, como a raqui e a peridural.
Equipe editorial: Tem algum outro aspecto com relação as novidades na anestesia regional que fosse interessante destacar?
José Vicente Prado Pereira: Existem algumas novidades que estão surgindo aí, uma delas é o ultra-som, e outra que eu apenas ouvi falar, mas não vi nada ainda, seria a localização, através de símbolos elétricos dos feixes, mas não tendo que introduzir agulhas, transdérmico, através da pele. Conseguiríamos estimular eletricamente os nervos, que hoje se faz com agulha, com micro-voltagem é claro, mas através da pele. Se isso realmente acontecer e se tornar uma realidade será uma maravilha.
Equipe editorial: A anestesia regional é superior ao bloqueio subaracnoideo e/ou peridural?
José Vicente Prado Pereira: Não é bem superior, ele traz efetivamente uma invasão menor, uma conseqüência fisiológica menor, porque a raqui, que é o bloqueio subaracnoideo, tem implicações interessantes sob o ponto de vista do bloqueio simpático. Já anestesia regional é bem mais aceita, mais ampla e mais fácil. E a peridural tem o problema, e existe um folclore inclusive negativo em relação a isso, porque aborda o neuro-eixo e chega perto das raízes nervosas, embora a medula propriamente não esteja ameaçada porque isso é mais folclore que realidade. Mas existe uma série de acidentes antigos que aconteceram no nosso meio que geraram medo. Então, a anestesia regional está fora disso aí, essa segmentar, periférica.
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