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janeiro de 2004
Fernando Squeff Nora é eleito presidente da SARGS
Após uma campanha acirrada, o anestesiologista Fernando Squeff Nora, representante da Chapa 1, foi eleito presidente da SARGS, com 57% dos votos do interior do estado e da capital. Foram 228 votos apurados, sendo 119 da capital e 109 do interior. Esta marca entra para a história da SARGS como a mais significativa presença de associados em uma assembléia geral para escolha da diretoria em 53 anos de existência. Confira a entrevista exclusiva, realizada para o portal, em que Nora fala sobre sua trajetória profissional, analisa a última eleição, aborda a profissão e apresenta os planos para a nova gestão.
Equipe editorial: Quais as expectativas para a Gestão 2004 da SARGS?
Fernando Nora: Realizamos a nossa primeira reunião de diretoria imediatamente após a posse, no dia 17 de dezembro de 2003. Na ocasião, alinhamos algumas estratégias para o ano de 2004. Entre elas, várias atividades científicas serão desenvolvidas tanto em Porto Alegre quanto no interior do Estado. Para tanto, começamos traçando um “plano de vôo” baseado nas expectativas e necessidades de cada setor. Uma pesquisa pessoal, através de e-mail, está sendo realizada com alguns membros do interior do estado para saber o interesse sobre a realização de eventos em 2004. Em Porto Alegre, a idéia é retomar o curso de introdução à anestesiologia, bem como as reuniões de especialidades nos hospitais de base. Já começamos a fazer estes contatos. O site será mais dinâmico e a enquete será modificada a cada 30 dias com espaço para respostas comentadas das questões anteriores. Toda a solicitação através do campo “contato” continuará sendo prontamente atendida. As entrevistas serão realizadas a cada mês para diversificar opiniões. A partir de 2004, iniciaremos contatos com as empresas farmacêuticas a fim de preparar o calendário científico e associativo. As atividades associativas da SARGS, junto às demais entidades médicas e SBA já estão agendadas e representadas. Estaremos presentes em todos os eventos. A idéia é manter a participação de dois diretores. Sempre na proporção de um antigo e um novo, para introduzirmos nossos novos colegas no meio associativo nacional. O Congresso Mundial já conta com a participação de dois colegas da SARGS, através da parceria com empresas de laboratórios, portanto, sem nenhum custo para a SARGS. Foram enviadas cartas aos não sócios ou sócios em débitos com a entidade para que retornem à Sociedade, a fim de contribuírem com o crescimento da mesma. A diretoria anterior já nomeou em conjunto com a AR, a comissão executiva da Josulbra de 2005, que será realizada aqui. Quanto a JARGS, mandamos e-mails para algumas cidades pólo onde o evento poderá ser realizado para que mandem uma proposta, tal como tema, apoio, hotelaria, turismo, entre outros. Desta forma, pretendemos realizar a escolha da sede da JARGS em votação durante AR com as propostas que forem encaminhadas. Esta atitude visa democratizar a escolha da sede e gerar uma “concorrência” entre as cidades pela disputa como cidade sede. Esperamos aumentar a participação do interior na busca pelo credenciamento para ser a cidade escolhida. Isto já ocorre com a escolha para a sede do CBA pela SBA.
Equipe Editorial: Há mais de 10 anos a diretoria da SARGS não era disputada. Como o senhor analisa esta eleição que mobilizou mais de 200 sócios?
Fernando Nora: Este foi o aspecto mais positivo dessa eleição e surgiu após um chamamento realizado em uma Assembléia de Representantes, em que outros colegas foram estimulados a montar uma chapa de oposição, com o objetivo de discutir as propostas e assim movimentar a Sociedade. Felizmente ocorreu a inscrição de uma chapa altamente qualificada, que valorizou em muito a vitória da diretoria atual. Na minha opinião, a SARGS sai extremamente fortalecida deste episódio. Estas eleições marcam o início de uma reação associativa que poderá culminar com a maior participação ao longo do ano pelos seus associados. Marca uma nova fase, à medida que, pela primeira vez, vamos atuar com uma diretoria científica de fato, contando com três colegas atuantes e qualificados. Outro aspecto de suma importância foi constatar que o sócio do interior quer participar, desde que tenha condições para tanto. Através do voto, por carta resposta, muitos colegas puderam votar e o fizeram de fato. A idéia é tornar essa atitude pioneira, uma regra nos anos subseqüentes e, talvez, aumentar as possibilidades de votação para os membros da capital também, através de algumas outras alterações que deverão ser debatidas junto a AR.
Equipe editorial: Na sua opinião, o que representa esta vitória?
Fernando Nora: Esta vitória foi associativa e pessoal. Quando iniciei minha vida associativa, tinha muitos planos, mas jamais passou pela cabeça atuar na SARGS para chegar a presidência. A vida associativa foi uma constante em minha vida, a partir do momento que pude entender que muitas decisões são tomadas nessas reuniões e que estes são os fóruns específicos para a mudança de mentalidade de colegas que pregam a desunião e não entendem a vida associativa como uma forma de ganho para todos. Ao longo destes anos, aprendi como funcionam as demais entidades. Após esta fase, que acredito ser indispensável para qualquer colega que almeje uma posição como esta, procurei ajudar a SARGS a adequar-se à realidade das demais sociedades médicas dentro e fora da anestesiologia, através da mudança do estatuto. A vitória associativa foi o reconhecimento daqueles que votaram em nossa chapa por este trabalho, que é apenas o começo. Formamos uma base mais sólida para que, a partir de agora, a SARGS possa voltar a crescer. No campo pessoal, a vitória foi a de vencer colegas altamente qualificados, participar da primeira diretoria com o formato que acredito ser o mais adequado e, como já coloquei antes, realizar uma homenagem ao colega mais ilustre que já tive!
Equipe editorial: Como é a sua trajetória profissional e o que lhe fez optar pela anestesiologia?
Fernando Nora: Estudei no Colégio Rosário, não conheço outra escola. Foram 11 anos nesse local, que fizeram com que cultivasse amizades guardadas até hoje. Alguns são médicos, outros advogados, publicitários, engenheiros e dentistas. Curiosamente, nenhum anestesista. Minha formação Universitária é pela PUC-RS, durante os anos de 1984 até 1989. A opção pela anestesiologia surgiu meio por acaso, em uma dessas situações inusitadas, mas que marcaram a minha vida. Sem dúvida essa é a profissão para a qual nasci. Minha formação universitária tendia para a cardiologia e medicina interna. Gostava de pacientes críticos, pois o contato era mais próximo e os resultados terapêuticos eram observados mais intimamente. Não gostava de esperar pelo resultado do exame, iniciar o tratamento e, somente algum tempo após, ver o resultado. Sempre fui meio imediatista. Certa ocasião, durante um churrasco de fim de semana, em conversa com um ortopedista irmão da namorada de um colega, foi que as coisas começaram a mudar. A esta altura já estava no último ano da faculdade de medicina e deveria fazer uma opção em breve. Como uma espécie de anjo, este colega, mais velho que eu, disse o seguinte. “...Você tem todas as características de um anestesista. Somente os anestesistas podem fazer o que você diz que gosta... Nenhuma outra especialidade tem um contato tão íntimo com o paciente, diagnostica, trata, faz adormecer cuida dos sinais vitais e acorda tão rapidamente. Você deveria pensar nisto...”. De fato, foi o que fiz, procurei estágios e nunca mais parei de estagiar em anestesia. Com a visão de alguém mais experiente e extremamente sensível ele acertou. Acredito que a vida é baseada em reciclagem e aprendizado, palavras-chave para a formação de um profissional competente e atuante. Minha formação em anestesia é pelo SANE, em Porto Alegre. Trabalhei com alguns colegas da faculdade, após minha formatura, até realizar exame para o HCPA. Lá aprovado, comecei a trabalhar sem equipe na clínica privada. Atualmente, trabalho no grupo Alfa, clínica privada, e no HCPA o qual sou contratado há nove anos e realizo anestesia basicamente para transplantes, cardíaca e otorrinoloralingologia, além de atendimento da sala de recuperação durante os períodos de plantão noturno. Há uns seis anos, mantenho estreita relação com a vida associativa. Participei de duas diretorias da SARGS como diretor administrativo e científico. Fui membro e presidente do comitê de anestesia venosa da SBA durante três anos. Participo das ARs da SBA há alguns anos. Fui membro da comissão organizadora do CBA realizado em Porto Alegre. Fui chefe da residência de anestesiologia do HCPA no ano de 2003. Criei o Curso de Atualização e Especialização em Anestesia Venosa, onde já levei, junto com Dr. Marcos Aguzzoli, este workshop para mais de 20 cidades em 2 anos. Resultado de uma parceria sadia entre médicos e empresas de laboratórios, através da divulgação e patrocínio de um laboratório, podemos levar aos demais colegas o nosso dia-a-dia em anestesia venosa. Os resultados destes workshops foram motivos de convite para apresentação em Oxford-Inglaterra, em anos anteriores. Diversos temas livres são apresentados no exterior levando nossa experiência em anestesia venosa, tais como Nice, Gotemburgo e Amsterdam.
Equipe editorial: Como analisa a anestesiologia no mundo, no Brasil e no RS?
Fernando Nora: A anestesiologia é uma das áreas da medicina com maior crescimento no Brasil e no mundo. Somos a terceira maior especialidade de anestesiologia em número de associados do mundo. Pertencemos a uma Sociedade com um estatuto e regulamento de dar inveja a muitas outras especialidades médicas. Com uma estrutura associativa forte, todas as decisões relativas à profissão são decididas em AR com a participação efetiva de todas as filiadas do país, representadas pelas regionais, tais como a SARGS. Cada regional tem um número de representantes nestas AR proporcional ao número de sócios de cada uma. Por isto, a importância de aumentarmos a participação de nossos associados. Com mais membros da SARGS na AR da SBA aumentamos nosso poder de disputa por cargos associativos e importância científica no país. A SBA, atualmente, mantém delegados na AMB e inúmeras vezes tem se feito representar junto ao Ministério da Saúde levando os interesses de nossa classe. Mantemos um nível científico altamente qualificado e somos exemplos de exportação de técnicas e colegas para os grandes centros. A SBA mantém, atualmente, alguns convênios para estágios na França, a exemplo do que algumas outras regionais já o fazem por iniciativa própria. Em suma, somos atuantes e queremos cada vez mais aumentar os nossos horizontes.
Equipe editorial: Em seu discurso de posse, foram salientadas as características principais de cada membro da nova diretoria. Como foi feita a composição desta Chapa?
Fernando Nora: A escolha dos membros da Chapa 1 foi realizada a partir de dois pontos básicos, o primeiro: procurar colegas com capacidade de realização, empatia caráter associativo, sem interesses privados maiores e, o segundo: aliar a experiência de alguns colegas com mais anos de corrida a colegas novos que possam tocar a SARGS amanhã. Costumo dizer que cargos como estes devem ser ocupados já pensando na saída. Se a nossa passagem pela SARGS possibilitar que possamos sair dela com o dever cumprido de ter formado opinião, de ter gerado ciência e de ter estimulado o debate associativo, teremos cumprido com o nosso papel. Todos os membros têm, acima de tudo, a característica de saber separar de forma objetiva e clara a sociedade de seus interesses privados. O debate associativo deve ser assim, representativo da maioria e respeitado por todos, mesmo que interesses privados não sejam compreendidos. O discurso associativo deve suplantar as necessidades privadas e vir de encontro ao bem comum. São pessoas com profundo dever associativo e compromisso com a realização do que os sócios em maioria decidirem que compõem esta diretoria. Foi assim que foram escolhidos. A chapa foi formada ao longo de todo o ano e não no dia anterior ao encerramento da inscrição. Por isto, pudemos contar com esta composição, que era meta inicial para que trabalhássemos dentro da concepção a que nos propomos. Somos jovens, temos planos e vamos procurar colocá-los em funcionamento. Acredito que todos devemos passar pela especialidade de forma marcante. A rigor são dois ou três anos de dedicação mais fortes para uma vida de mais de 30 anos de trabalho a que temos direito. Esta doação faz parte de nossa formação social e ajuda a formar o caráter dos novos além de nos ajudar a envelhecer engajados em nossa profissão.
Equipe editorial: Que mensagem deixaria para os anestesiologistas que estão ingressando no mercado de trabalho?
Fernando Nora: Aos novos colegas eu diria que o mercado de trabalho está cada vez mais competitivo. Isto pode significar difícil, para alguns, e desafiador para outros. Sejam empreendedores, pois para vocês jamais faltarão oportunidades. Trabalhem dentro da sociedade, respeitem as normas da sociedade. Se não concordarem com elas, participem e mudem. Demora, mas vale a pena! Enfrentamos mudanças marcantes na forma de atuar na profissão, de nos relacionarmos com os hospitais e demais sociedades. Podem ter certeza, todos estão organizados. Sabem quem você é, sabem o que você mais faz e até o quanto cobra de honorários dos seus pacientes. É a informação nos trazendo tecnologia de um lado e nos expondo de outro. Organização é a palavra-chave para o desenvolvimento sustentado e ordenado. Tomadas de decisões e negociações afoitas e isoladas são, como vimos em histórias recentes, fonte de descontentamento geral e perdas.
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